quarta-feira, 5 de outubro de 2011

A um ti que eu inventei

Pensar em ti é coisa delicada.

É um diluir de tinta espessa e farta

e o passá-lo em finíssima aguada com um pincel de marta.


Um pesar de grãos de nada em mínima balança,

um armar de arames cauteloso e atento,

um proteger a chama contra o vento,

pentear cabelinhos de criança.

Um desembaraçar de linhas de costura,

um correr sobre lã que ninguém saiba e oiça,

um planar de gaivota como um lábio a sorrir.


Penso em ti com tamanha ternura

como se fosses vidro ou película de loiça

que apenas com o pensar te pudesses partir.


by António Gedeão, Máquina de Fogo, 1961

2 comentários:

  1. Olá,

    Belíssimo esse poema.

    A delicadeza do que desejamos está na exata medida da força com que tocamos os pensamentos.

    Um abraço e ótimo final de semana aí na terra do tio sam.

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  2. Will, é muito bom poder contar com pessoas de almas nobres e você sem sombra de dúvida esta entre elas.
    Lindo final de semana
    Abraço cheio e carinho

    ((Rosie))

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